No ano passado, o coletivo Parafernalha fez um vídeo (veja aqui) que fala sobre o preconceito disseminado na sociedade acerca de diferentes grupos. O uso do humor pode ser uma maneira de chamar a atenção para os vieses. Mas nem sempre é o caso.
Será que existem danos associados à disseminação de piadas racistas ou sexistas? Diversos estudos na área da psicologia social afirmam que sim, há consequências negativas relacionadas ao humor do desprezo, que tenta arrancar risadas às custas de grupos minoritários, marginalizados ou vulneráveis. O professor Thomas E. Ford, da Western Carolina University, escreveu a respeito em artigo publicado no The Conversation (texto original em Inglês).
O humor do desprezo é paradoxal: simultaneamente comunica duas mensagens conflitantes. Uma é a mensagem explicitamente hostil ou preconceituosa. Porém, esta é acompanhada por uma segunda mensagem implícita de que “isto não conta como hostilidade ou preconceito já que não quis dizer assim, é apenas uma piada“.
Ao disfarçar expressões de preconceito sob um véu de brincadeira e frivolidade, o humor do desprezo aparenta ser inofensivo e trivial. Entretanto, um crescente conjunto de investigações em psicologia sugerem o oposto – que este tipo de humor pode estimular o preconceito contra os grupos-alvo.
Em seu artigo, Ford explica que, na maior parte do tempo, pessoas preconceituosas escondem suas verdadeiras crenças e atitudes por temerem críticas. Apenas expressam seu preconceito quando há um contexto que dê indícios de que há aprovação para tal, que dê sinais de que é seguro manifestar tal preconceito.
O que Ford e seus colegas estudaram foi a função da piada neste sentido – o humor do desprezo pode actuar no nível da compreensão das normas sociais (as regras implícitas de conduta aceitável). Deste modo, há um alargamento dos limites acerca do que é considerado aceitável e passa a abranger comportamentos que seriam considerados errados ou inapropriados.
Diversas pesquisas apontam efeitos perniciosos de piadas sexistas. As conclusões de algumas destas investigações são preocupantes. Após serem expostos a tais piadas, homens machistas reportaram maior tolerância a assédio de género no local de trabalho, e até mesmo expressaram maior disposição a violação de mulheres. Ou seja, o humor sexista expande os limites do que é considerado aceitável quanto ao tratamento das mulheres.
Ao final de seu artigo, Ford chama a atenção de que há evidências de que o humor de desprezo também pode servir para subverter ou mesmo enfraquecer a discriminação, ao expor os absurdos estereótipos e preconceitos. Entretanto, nem sempre o público é capaz de perceber a intenção de quem comunica. É possível que parte das pessoas compreenda o objectivo, mas há indícios de que os indivíduos que apresentam maiores níveis de preconceito possuem maior tendência a interpretar erroneamente o humor subversivo; assim, podem terminar por encará-lo como humor de desprezo, o que caracterizaria um efeito irónico.
O documentário brasileiro O Riso dos Outros, do realizador Pedro Arantes, aborda o tema do humor como forma de disseminação do preconceito.
No documentário é possível escutar as opiniões de comediantes, cartunistas e representantes de grupos estigmatizados. Também há discussões sobre piadas do ponto de vista dos comediantes e dos públicos-alvo.
No debate sobre o potencial ofensivo do humor, não há consenso. Há potencial para danos psicossociais e há potencial para quebrar os preconceitos. Há limites para o humor? Arantes, numa entrevista à Revista Trip, conclui:
Você pode sim trabalhar com temas que são delicados. Eu acho que não existe nenhum tema proibido no humor. Agora, você tem que se cercar de cuidados para poder trabalhar com determinados temas. Eu procuro primeiro fugir do óbvio. A piada óbvia é sempre a primeira a vir na cabeça. Você pode partir do óbvio, nunca chegar nele. Procuro também fugir ao máximo dos estereótipos que já estão muito cristalizados e que às vezes estão reproduzindo visões de mundo com as quais eu não concordo.


